10 de fev. de 2011

Olhos gastos

Um cansaço de não se cansar.
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Outro dia saí com algumas amigas para um barzinho qualquer. Um desses aí, de esquina. A noite foi maravilhosa. O problema foi o espanto no dia seguinte. É que, ao rever as fotos, algo estranho eu pude encontrar naquelas poses inusitadas, naqueles sorrisos um pouco forçados e naquela alegria meio que imediata. Algo estava errado. Meus olhos pareciam cansados. Não sei de quê, não sei porque. Mas eu senti que ali não era eu mesma. Algo estava diferente e foram as lentes de uma simples câmera fotográfica que me acordaram para a realidade.

Meus cabelos estavam lindos e minha pele parecia saudável mas meus olhos, não sei, algo neles faltava. Eu me senti feia, normal e sem alegria. Pior é que eu jurei que aquela noite tinha sido uma das melhores que já tive. É como se algo estivesse me martelando por dentro e só os meus olhos estivessem sofrendo todos os efeitos disso. E eu quis saber porque. Eu implorei, supliquei e choraminguei em frente ao espelho, tentando entender o porque que os meus olhos pareciam tristes, sem brilho e sem graça. A minha vida estava ótima, tudo estava ótimo. Pelo menos, eu achei, acho que estava. Tentei novas poses, novos ângulos e não adiantou. Resolvi, então, apelar para a maquiagem. Tentei cores de sombras diferentes e exageradas, rímeis com super poderes e até um daqueles iluminadores, algo que nunca experimentei, só pra tentar consertar o que parecia torto, sem riso, sem nada. Não deu certo. A maquiagem ficou perfeita e até me surpreendi comigo mesma. O problema é que bem no fundo, por trás de toda aquela frescura, algo continuava intacto e os meus olhos continuavam fatigados.

Fiquei irritada e, num gesto só, joguei todo o meu conjunto de maquiagem no cesto de lixo. De que me adiantava tentar esconder aquele olhar abatido e gasto se pra mim, não mudava nada? Eu sentei na cama, cética e sem movimentos. Me angustiava aquela sensação de não saber, de não sentir, de não poder resolver. Pensei que poderia ser culpa das longas horas de frente a televisão e às poucas horas de sono. A verdade é que eu sabia que não era nada disso. Eu sabia que, de fato, algo faltava.

Comecei a vasculhar algumas fotos, um pouco antigas. A diferença foi visivelmente atirada no meu rosto já pálido. Eu mudei. Algo mudou. O pior de tudo é que não havia uma razão óbvia, evidente, clara. O contrário, tudo parecia cada vez mais escuro e nem minha intuição resolveu se impor. Só pode ser loucura, desvio. Sei lá! Não me agradava a idéia de estar sem cor, sem encanto, sem magia. Não me agradava a idéia de ter olhos vazios.

Desliguei a luz do quarto, deitei do lado direito da cama e fechei meus olhos num ato imediato. Eu senti o coração pesado, complicado e revoltado. Algo perdera o sentido ali, naquele metro quadrado. Lembrei da noite, no bar, com as amigas. Me dei conta de que estava sim feliz, apesar de estar com os olhos cansados. Descobri que era possível, embora não me aliviasse quase nada. Pensei, pensei e pensei mais um bocado de vezes. Tentei sorrir e fingir que estava tudo bem e que tinha sido só mais um drama, daqueles que a gente inventa pra sacudir um pouco o coração. Mas as fotografias não sumiam da minha mente. Estavam presas ali, como fantasmas impossíveis de espantar.

Abri, então, os meus olhos. O escuro já tinha tomado conta de todo o quarto. E aquela sensação de estar perdida, me deixou ainda mais inconsolada. Algo, dentro de mim, estava apertado e quase podia me sufocar. Daí, uma esperança daquelas que assopram no peito, aconteceu de repente. Olhei pra cima, para um lado, para o outro e nada. Estava desesperada. Foi, então, que a resposta chegou e me tapiou três vezes na cara. Eu estava cansada de ver o mundo mas de não enxergá-lo. Foi aquele aperto de mão que dei sem querer, foi aquele sorriso que deixei escapar, foi aquela ajuda que eu não quis aceitar. Foi o cansaço de me ver todos os dias, e não me enxergar a ponto de não me amar. Sim, meus olhos estavam cansados de ver e de não enxergar. E eu estava cansada, de não me cansar.
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